Todas as Vidas

Muitas Coras
Colagens com Cora
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo...

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.


CORA CORALINA


(pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)

    Ana nasceu na cidade de Goiás, conhecida como “Goiás velho”, município dos primórdios do estado de Goiás. Filha de família tradicional do interior fez história na cidade grande. Seus versos anotados desde os 14 anos só começaram a ser conhecidos quando ela fez 77. Enquanto fazia seus versos, era contista, cronista de tempos passados e presentes, jornalista observadora e crítica social.

    “Casou-se com um homem casado” era o que diziam as más línguas da época que condenavam divórcio. Fugiu da cidadezinha linguaruda em que nasceu com o homem que escolheu. Foi morar no interior de São Paulo até que a morte os separou.

    Com a morte do marido e com seis filhos para criar, foi para São Paulo capital trabalhar para a Editora José Olimpo, vender livros em São Paulo. Ao completar 50 anos de idade, deixou de atender pelo nome de batismo e assumiu o pseudônimo que escolheu para si: Cora Coralina.

    Cora foi uma mulher que viveu muito. Em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, atuou diretamente como enfermeira de campanha e voluntária em favor dos combatentes. Trabalhou junto com a Igreja Católica em ações como arrecadação e distribuição de cestas básicas. Em Goiás, para onde retornou, utilizava sua residência como ponto de acolhimento e escuta para a população local. Sempre incentivou a alfabetização e a leitura. Recebeu convites para ser candidata a vereadora, mas nunca aceitou.

    O ativismo social de Cora Coralina expressou-se pela resistência poética, pela defesa do empoderamento feminino e pela solidariedade ativa às populações marginalizadas. Seu ativismo não ocorreu por filiação a partidos políticos tradicionais, mas por meio de sua postura de vida e de sua obra.

    Cora enfrentou o conservadorismo da sociedade goiana do início do século XX ao romper com imposições familiares e sociais. Em uma época em que o papel feminino era restrito ao ambiente doméstico, ela trabalhou de forma autônoma como doceira, lavradora e vendedora. Em seus versos, reivindicou a dignidade do trabalho manual e defendeu a emancipação das mulheres.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente aqui: