Quarto de Despejo - Diário de uma favelada

 É tempo de redescobrir o talento de Carolina de Jesus:


Carolina de Jesus

"19 de julho de 1955 - [...] Quando as mulheres feras invade o meu barraco, os meus filhos lhes joga pedras. Elas diz:
- Que crianças mal iducadas!
Eu digo:
- Os meus filhos estão defendendo-me. Vocês são incultas, não pode compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro e vocês com estas cenas desagradáveis me fornece os argumentos.
A Silvia pediu-se para retirar o seu nome do meu livro. Ela disse:
- Você é mesmo uma vagabunda. Dormia no Albergue Noturno. O seu fim era acabar na maloca.
Eu disse:
- Está certo. Quem dorme no Albergue Noturno são os indigentes. Não tem recursos e o fim é mesmo nas malocas, e você, que diz nunca ter dormido no Albergue Noturno, o que veio fazer aqui na maloca? Você era para estar residindo numa casa própria. Porque a sua vida rodou igual a minha?
Ela disse:
- A única coisa que você sabe fazer é catar papel.
Eu disse:
- Cato papel. Estou provando como vivo!... Estou resistindo na favela. Mas se Deus me ajudar hei de mudar daqui [...]

20 de julho - [...] Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia.
Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna.
Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. É só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possível. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela [...]
Aqui, todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem [...] Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo [...]"

trechos do livro: Quarto de Despejo

 

    Carolina Maria de Jesus foi mulher negra, favelada, catadora de papel e mãe solo no começo do século passado. Nasceu brasileira, em 14 de março de 1914, numa comunidade rural de Minas Gerais. Os pais eram analfabetos como a grande parte da população brasileira da época. Carolina foi a primeira da família a aprender a ler.

    Em 1937, após a morte da mãe, foi a pé viver em São Paulo. Morou na rua e após o nascimento de seu primeiro filho, instalou-se na favela do Canindé, considerada a primeira favela da Capital paulista. Trabalhava como catadora de papel e nas horas vagas registrava o cotidiano metropolitano em diários anotados em cadernos que encontrava no lixo.

    Um desses cadernos de escritos transformou-se em seu primeiro livro: Quarto de Despejo - Diário de uma favelada, publicado em 1960. Um livro com personagens reais de histórias reais de um Brasil e de um mundo novo. Resumidamente o livro virou best-seller

    Mas a trajetória para chegar à primeira publicação não foi simples. Carolina de Jesus, ao longo do dia, enquanto vagava pela cidade recolhendo papel, parava nas redações de jornais e rádios para mostrar seus escritos. Apresentava-se dizendo: “Meu nome é Carolina Maria, poetisa preta”.

    Além de diários e poesias, escreveu músicas. Além de escrever, chegou a cantar e declamar em algumas rádios. O jornalista Audálio Dantas ao entrar em contato com a produção da escritora, deu todo o apoio necessário para o início da publicação de seus primeiros livros.

Quarto de Despejo - Diário de uma favelada



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