Nossa Senhora Aparecida do Brasil

imagem brasileira

     Tudo começou em 1717, no Rio Paraíba do Sul. Três pescadores, Domingos, João e Felipe, passavam por aquele perrengue clássico de quem precisa entregar peixe para uma comitiva oficial mas as águas simplesmente não colaboravam. Redes vazias, paciência esgotada e o medo do puxão de orelha dos nobres. Até que, num lanço de rede desacreditado, veio metade de uma imagem de terracota. No lanço seguinte, a cabeça.

    Foi só juntar os pedaços da pequenina imagem escura para a magia (ou o milagre) acontecer: a rede, antes limpa, veio transbordando de peixes. E simplesmente apareceu, abençoada desde o começo, uma tradição ligada ao "jeitinho brasileiro" que sinteriza muito nosso país.

    Depois de aparecer, a Padroeira do Brasil provou que não gostava de formalidades. Ficou anos na sala da casa de um dos pescadores, recebendo a vizinhança para terços animados e causos da comunidade. Quando a devoção cresceu demais para a sala de estar, ganhou capela, igreja e, finalmente, virou uma gigantesca Basílica, hoje o segundo maior templo católico do mundo. Nada mal para a humilde Santa do Brasil sertanejo, cujo grande charme da devoção está na criatividade do olhar dos devotos.

    O brasileiro católico desenvolveu uma espécie de "superpoder poético". Basta uma xícara de café derramada com um formato curioso na mesa, um reflexo na janela do ônibus ao entardecer ou as marcas nas asas de uma borboleta: pronto, lá está ela. Onde o cético enxerga mera coincidência da luz, o brasileiro enxerga o manto sagrado da Mãe Preta acolhendo o dia. É uma fé que não precisa de microscópio ou laudo do Vaticano; precisa apenas de afeto e de um bocadinho de brasilidade.

    Essa conexão íntima transcendeu os altares e invadiu a cultura popular de vez. Aparecida virou estrela do cancioneiro sertanejo com Tonico e Tinoco e emociona multidões na voz de Roberto Carlos. Aparece no Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, onde a "Nossa Senhora"  intercede com humor e compaixão pelos pecadores mais desastrados do sertão.

    Houve um tempo em que negligenciaram sua cor, mas o povo nunca aceitou. Aparecida é negra, emergida das águas profundas do Brasil colonial, síntese da resistência e do acolhimento. Não à toa, o país reservou um dia do calendário oficial da nação para a Mãe Preta do Brasil, nossa padroeira e cuidadora especial de todas as crianças.

    A fixação do dia 12 de outubro para a celebração de um dia a Nossa Senhora passou por um longo processo aqui no Brasil desde a aparição até chegarmos aos dias de hoje:

    Em 1930 o Papa Pio XI declarou Nossa Senhora Aparecida como Padroeira Oficial do Brasil.

    Em 1953: A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) determinou que a festa da Padroeira seria comemorada em 12 de outubro. A escolha considerou o mês do descobrimento da América (12 de outubro de 1492) e a proximidade com o período em que a imagem foi encontrada.

    Em 1980 a data tornou-se oficialmente feriado nacional pela Lei nº 6.802, de 30 de junho, promulgada durante a visita do Papa João Paulo II ao Brasil. O feriado refere-se exclusivamente ao culto à Padroeira. 

    Nos últimas décadas a sociedade brasileira observou o crescimento de várias Igrejas Cristãs não católicas, com pensamentos vindos do exterior, que passaram a desdenhar de práticas religiosas da nossa cultura popular. Nesse mesmo tempo, falsos profetas e políticos vigaristas enriqueceram enganando o povo.

    Se o povo brasileiro tem sofrido na carne o avanço da estupidez na sociedade, Nossa Senhora da Conceição Aparecida tem experimentado igualmente o crescimento do desrespeito e da desconsideração. Em 1995 uma réplica ampliada da estátua da santa foi chutada em rede nacional de Televisão por um midiático bispo evangélico, propagador de mentiras e injustiças que continuam nos dias de hoje a ameaçar nosso futuro.

 


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