Por Que os Números de 2025 Não Revelam a Realidade da Educação Gaúcha:Por um olhar crítico sobre a avaliação educacional
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) consolidou-se, nas últimas duas décadas, como o principal termômetro da qualidade do ensino no Brasil. Publicado bienalmente, o indicador serve de bússola para gestores públicos, pauta manchetes e, não raro, atua como instrumento de premiação ou punição simbólica para redes de ensino. No entanto, quando lançamos o olhar sobre os dados do IDEB 2025 aplicados às redes estadual e municipais do Rio Grande do Sul, a aparente precisão do índice revela-se um espelho deformante: uma métrica cartesiana incapaz de capturar a complexidade e as feridas abertas da escola pública gaúcha.
A fragilidade do IDEB reside, antes de tudo, em sua própria arquitetura metodológica. O indicador resulta da combinação entre as taxas de aprovação escolar e o desempenho em exames padronizados de Língua Portuguesa e Matemática. Essa equação, que no papel parece equilibrada, gera distorções perversas na prática pedagógica, a começar pela pressão contínua pelo fluxo escolar. Para elevar a nota no indicador, a orientação implícita às escolas é reduzir a reprovação. Todavia, sem investimentos maciços em recomposição de aprendizagem, a redução do retardo escolar se transforma em mera aprovação compulsória. Elevar taxas de aprovação sem garantir as condições materiais de aprendizagem não melhora a educação; apenas mascara a evasão e maquia os indicadores oficiais, correndo-se o risco de diplomar estudantes com graves lacunas para assegurar que a régua estatística suba no ciclo seguinte.
A essa distorção do fluxo soma-se o estreitamento do próprio projeto pedagógico. Ao reduzir a avaliação em larga escala exclusivamente aos conteúdos de Português e Matemática, o IDEB invisibiliza dimensões fundamentais da formação humana e cidadã. Áreas inteiras do conhecimento, como a Sociologia, a Filosofia, a História e a Geografia, são sumariamente desconsideradas na composição da nota. Da mesma forma, o desenvolvimento do pensamento crítico, a capacidade argumentativa e a mediação de conflitos não entram na conta de um teste de múltipla escolha. O resultado é a conversão do ambiente escolar em um centro de treinamento para provas padronizadas que ignoram as especificidades culturais, geográficas e socioeconômicas das diferentes regiões do estado.
Inserida nesse cenário, a questão remuneratória do magistério gaúcho expõe a contradição central das políticas educacionais recentes. A tentativa de vincular a valorização docente a prêmios de desempenho e "14º salário" condicionados ao cumprimento de metas do IDEB descola o salário da dignidade da carreira. Ao priorizar bônus pontuais em detrimento do reajuste estrutural da tabela salarial e do cumprimento pleno do piso nacional, o Estado transfere a responsabilidade dos resultados educacionais exclusivamente para as costas do professor. Essa lógica meritocrática aprofunda as abismos entre comunidades: escolas situadas em territórios com maior infraestrutura e menor vulnerabilidade tendem a alcançar as metas com mais facilidade, enquanto unidades que enfrentam a extrema pobreza, a falta de recursos e a carência de pessoal são duplamente penalizadas — pela precariedade cotidiana e pela negação do incentivo financeiro. A verdadeira valorização do magistério não se faz com gratificações aleatórias e competitivas, mas com remuneração digna incorporada ao vencimento básico, plano de carreira atrativo e condições adequadas de trabalho.
No contexto do Rio Grande do Sul, as fragilidades reveladas na edição de 2025 tornam-se ainda mais gritantes quando confrontadas com o rastro das recentes crises socioambientais e financeiras que atingiram o território gaúcho. O IDEB pressupõe uma regularidade institucional e comunitária que a realidade local há muito não vivencia. As suspensões prolongadas de aulas e o comprometimento da infraestrutura física decorrentes de eventos climáticos extremos impactaram diretamente o tempo real de exposição ao ensino e a saúde mental das comunidades escolares. Ignorar a vulnerabilidade social, os deslocamentos forçados, o arrocho salarial e a sobrecarga do magistério é tratar a escola como uma abstração estatística, exigindo superação individual onde se exige investimento público estrutural.
Não se trata de advogar pelo fim da avaliação em larga escala, pois diagnosticar desigualdades é um passo indispensável para orientar políticas públicas. O problema reside na fetichização do indicador — na transformação do IDEB de um instrumento diagnóstico em um fim em si mesmo. Para que a avaliação da educação gaúcha seja de fato honesta e emancipatória, é urgente avançar para um modelo multidimensional que incorpore as condições reais de oferta, considerando a infraestrutura dos prédios, o tamanho das turmas, a valorização salarial permanente dos professores e o suporte psicossocial oferecido aos estudantes. Enquanto a qualidade da escola pública for reduzida a uma nota decimal e a uma corrida por prêmios numéricos, continuaremos celebrando metas virtuais enquanto a realidade concreta das salas de aula gaúchas clama por socorro estrutural.
João Ives Doti Junior é professor, sociólogo e pesquisador

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