O mundo do trabalho que presenciamos atualmente, foi construído dentro de um processo de intensa e profunda racionalização da produção da sociedade de mercado em que estamos inseridos. Esse mesmo processo racional cuja lógica é a acumulação de capital e riqueza, foi acompanhado em seu aperfeiçoamento, de intensa luta por parte dos trabalhadores para conseguirem melhores condições de vida e trabalho.
Nesse contexto ter uma profissão regulamentada, conseguir firmar um contrato ou ter uma carteira assinada são conquistas. No entanto, existe uma grande diferença entre o que é normalmente descrito em contratos, organogramas e planilhas com funções e atividades, com o que os trabalhadores tem que lidar no seu dia a dia.
As razões para essa discrepância podem ser múltiplas, mas não podemos deixar de explorar o fato de que no mundo capitalista que nos cerca, os procedimentos concebidos aos trabalhadores são criados por terceiros, por gerentes ou gestores distantes dos trabalhos concretos até em seus ambientes de elaboração.
Encontramos um problema fundamental ao perceber que não é do local de trabalho que surgem as prescrições de sua realização, assim é previsível esperar discrepâncias entre o que foi previsto como ideal de operação e as atividades reais do dia a dia.
Para conseguir alcançar os objetivos esperados, os trabalhadores precisam interpretar, a sua maneira, as prescrições que lhes são passadas e dar-lhes vida, dar-lhes sentido e também serem capazes de superar todas as anomalias pelas quais são confrontados no seu trabalho cotidiano.
Enfrentar as dificuldades práticas, encontrar soluções e inventar pequenas astúcias é desenvolver toda uma série de competências específicas próprias a uma categoria profissional ou a um grupo social, o que torna o mundo do trabalho um espaço de criação de um comportamento coletivo compartilhado.
Por exemplo, em um determinado ambiente, os mais velhos ensinam os mais jovens: “Hei, senta direito ai, essa postura não vai fazer bem para suas costas”. Muitos acidentes de trabalho foram evitados graças a conhecimentos compartilhados.
Essa vida social, essa sociabilidade se impregna também de um sentido político. Há, em torno do trabalho real, tomadas de consciência coletivas, sindicais, políticas, morais, que fazem as pessoas sentirem que elas compreendem o que lhes está acontecendo e porquê. Elas podem vincular suas experiências às dimensões econômicas e políticas que vão além de seu local de trabalho.
No entanto, hoje em dia, aliada a uma crescente automatização da produção, existe uma intencional ênfase na individualização do trabalho, com o avanço das ideologias que pregam a flexibilidade e a preparação de mão de obra multi funcionais. São ameaças concretas aos benefícios do trabalho coletivo, intencionalmente planejadas que apresentam novas dificuldades para os trabalhadores que apesar dos pesares continuam construindo o nosso mundo.

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