A história não é um bloco monolítico. Ela chega até nós sempre como uma versão possível entre tantas outras. O que aconteceu, de fato, aconteceu. Os fatos brutos são imutáveis. Mas a forma como os interpretamos, os selecionamos e os narramos muda constantemente.
Essa transformação acontece porque cada geração olha para o passado com seus próprios olhos, com suas perguntas e seus valores. Um mesmo evento como a chegada dos portugueses ao Brasil, por exemplo, pode ser contado como "descobrimento", "invasão" ou "encontro de culturas". Nenhuma dessas versões é "a verdadeira"; cada uma é uma lente que revela aspectos diferentes da realidade.
Augusto Comte, por exemplo, importante pensador francês que influenciou e influencia muitos pesquisadores e estudiosos, criou no século XIX o que ele chamou de “lei dos três estados” segundo a qual a humanidade evoluiu do passado ao presente em uma linha progressiva, passando por 3 estados de desenvolvimento.
O primeiro o estado teológico, fictício ou mitológico, foi marcado por uma compreensão sobrenatural do mundo pelos humanos, onde todos os fenômenos naturais eram explicados a partir de forças sobrenaturais, deuses que segundo os primeiros humanos, regiam os acontecimentos.
O segundo estado foi o metafísico ou filosófico, um estágio de transição, quando os fenômenos naturais passaram a ser pensados a partir de considerações sobre o mundo encarado como real e natural e principalmente argumentados a partir de atitudes racionais e lógicas.
Por fim a humanidade teria atingido seu máximo grau de desenvolvimento com o estado positivo ou estado científico, quando a observação tomou o lugar da mera imaginação e das abstrações teóricas que caracterizaram os dois estados anteriores. Os fenômenos encarados pela mente humana nesse estágio da evolução não dependem mais das vontades divinas ou das vontades humanas. O conhecimento científico encontrou sua perfeição e é o último estágio da evolução e consolidação da razão humana.
Lewis Henry Morgan, também é outro teórico que apresentou uma visão sobre a evolução humana em um livro publicado em 1877 que se tornou clássico nas ciências humanas traduzido para o português com o título de “A Sociedade Antiga”, nele o autor também argumenta que a humanidade experimentou 3 etapas básicas no processo de seu desenvolvimento ao longo do tempo histórico. Essas etapas foram classificadas e denominadas por ele como selvageria, barbárie e civilização.
Sinteticamente, pode-se dizer que a selvageria termina com o domínio do arco e da flecha e a invenção da arte e da cerâmica; a barbárie termina com a domesticação de animais, o cultivo irrigado, o uso de tijolos e pedras na construção de casas, a manufatura de metais, o desenvolvimento do alfabeto fonético e o uso da escrita em composição literária; e a partir desse ponto se inicia a civilização, cuja trajetória estamos percorrendo.
No entanto, diferente de Comte, Morgan chamava atenção para o fato de que esses passos não ocorrem de forma retilínea e uniforme na totalidade da sociedade, nem mesmo dentro de uma determinada parcela social, os passos para ele são dados de maneira desencontradas pelo conjunto da humanidade, sendo que algumas sociedades avançam antes de outras. Existe no pensamento de Morgan uma ideia de existência de uma eterna luta dialética em que “o novo nega o velho e o velho nega o novo” dentro de uma mesma sociedade que pode apresentar concomitantemente traços destas distintas etapas de nosso desenvolvimento.
São muitas histórias para contar:
